HERMETISMO E GNOSTICISMO NAS REDES ELETRÔNICAS

Procurando uma versão eletrônica de um trecho do cibercultura, de André Lemos, achei nessa página no geoticies (!): Espaço Cultural Indígena. A versão é um pouco diferente do livro, mas vai abaixo o trecho todo, que tem bastante a ver com a tecnomagia:

O termo hermetismo é empregado para descrever a literatura hermética, atribuída ao deus grego Hermes. Essa literatura se caracteriza pela busca de conhecimentos secretos (gnósticos). Hermes é o deus da comunicação, o mensageiro, aquele que viabiliza as trocas de informações, como o Exú do candomblé afro-brasileiro. O cyberespaço é, como o espaço sagrado de movimentação de conhecimentos e de informações, um espaço de encruzilhadas. Ele é uma casa para as “comunidades de almas”. Assim sendo, nós podemos traçar paralelos entre o cyberespaço e a arte hermética da memória, a criptografia demoníaca e a cosmologia gnóstica.

O hermetismo é, desde o começo, uma técnica mágica de armazenamento e de tratamento de informações. O pensamento mágico é imerso num mundo de informações das mais diversas (nomes rituais, códigos secretos, correspondências astrológicas, signos, imagens) onde o sucesso da busca se realiza na manipulação dessas informações. O conhecimento hermético visa organizar este vasto saber através de uma arte da memória (Frances Yates) que consiste na criação de espaços imaginários, como uma vasta edificação. Essa arte da memória, ou mnemônica, se aproxima da idéia do poeta grego Simonide de Céos (556-469 aC) que pensava a memória como uma casa onde depositaríamos “souvenirs” em cada peça da casa. A recuperação dessas informações se dava por um percurso imaginário na casa imaginária. Podemos pensar a memória como uma arte de percorrer um “espaço imaginário”.

A manipulação mágica das informações no hermetismo e no gnosticismo encontra um paralelo com as manipulações de dados nas redes de computadores e nos sistemas de realidade virtual, pois como um espaço hermético, o cyberespaço é um espaço da memória, um espaço imaginário povoado de imagens, de encruzilhadas, um “inner space” (Santo Agostinho)..

A arte medieval da memória, baseada na alegoria, que o poeta catalão Lull chamava de “Arbor Scientae”, se estrutura enquanto un conjunto de conhecimentos agrupados em florestas de árvores, sendo a imagem das árvores uma metáfora para o crescimento da natureza e do saber. Da mesma forma, a metáfora da teia (o WEB) que liga todas as informações disponíveis no planeta, serve hoje como imagem para o cyberespaço. As interfaces gráficas são também metáforas e alegorias para a busca de informações. Manipular os ícones revela a essência da manipulação mágica. Dessa forma, a manipulação mágica do mundo, como a manipulação de dados no cyberespaço, se situam na mesma dinâmica.

As imagens, os totens e os ícones, mais que simples representações, são simulações do mundo: eles funcionam “como se”. Da mesma forma que no “voudou” a manipulação da boneca é a manipulação do alvo, na metáfora do “desktop”, os ícones simulam objetos reais (como arquivos, pastas, lixeiras, etc.), permitindo a manipulação virtual desses objetos. Assim como as alegorias medievais, as redes de computadores “fusionam as imagens com abstrações, elas tendem para uma complexidade barroca, contendo operações mágicas e hiperdimensionais, e freqüentemente representam espacialmente suas abstrações”.

A batalha atual dos “cypherpunks” pela adoção de sistemas públicos de criptografia de mensagens encontra também um eco na mística da cabala e das criptografias antigas. A criptografia de mensagens era vinculada à valorização do poder não como simplesmente saber ou conhecimento, mas como código secreto, como conhecimento hermético, acessível somente aos iniciados. A quebra dos códigos secretos é a fonte do poder máximo pois o hermetismo é fundado nas técnicas de numerologia a partir das quais nós podemos desvendar mensagens esotéricas. O desenvolvimento da criptografia de massa pelos cypherpunks (assim como o de agentes) faz com que o cyberespaço seja um espaço mágico de circulação de códigos secretos e de anjos ou demônios, que aí circulam em busca de informações. Logo, não é ao acaso que McLuhan dizia que com o advento da eletricidade nós entramos num “tempo de iluminação”.

A representação de um espaço mágico, pleno de conexões e de estruturas multi-dimensionais é a forma de estruturação do cyberespaço. Como dizia Aggripa no seu “De Occulta Philosophia”, existem três tipos de magia: uma magia natural (manipuladora das forcas da natureza), uma magia matemática (influenciada pela filosofia mística de Pitágoras) e uma magia teológica (relativa à comunicação angélica). Essa comunicação angélica se atualiza hoje com a disseminação de agentes electronicos. Ora, os agentes, programas inteligentes que circulam pelo cyberespaco em busca de informações personalizadas, são assim como demônios bem próximos da “magia teológica” de Aggripa. A gnose (do grego conhecimento, ligado ao conhecimento de Deus) é, mais do que uma transcendência mística, uma busca afinada de informações que, colocadas juntas, trazem à tona conhecimentos revelados a poucos. A gnose é assim uma técnica mágica, uma “technè”, como manipulação prática de informações (nomes secretos, códigos, etc.). Podemos assim, ver a gnose e o hermetismo como antecipadores do cyberespaço e da cybercultura.

A gnose é atualizada hoje pela nova forma de esoterismo que emerge com a cybercultura na forma do “tecno-paganismo” típico dos “ravers” e “zippies” (19). Esses são personagens da cybercultura que misturam esoterismo e novas tecnologias, principalmente aquelas que dão acesso ao cyberespaço. Os tecnopagãos visam assim restabelecer a tecnologia como parte da cultura, ao mesmo tempo em que refutam as dicotomias entre o sagrado e o profano. Assim, a partir das novas tecnologias, são visados os rituais (festas, sexo e drogas), a busca do espírito e da transcendência da matéria. Para os tecnopagãos, as novas tecnologias do cyberespaço devem ser vistas como parceiras dionisíacas da gnose.

O cyberespaço é para os tecnopagãos, um espaço mágico por excelência, um espaço imaginário. Eles se interessam pela ficção cientifica, pela realidade virtual e, obviamente, pelos MUDs, espaço imaginário por excelência. Como define um “tecnopagão” “viver on-line faz parte da minha pratica diária (…) é um tipo de experiência eremita, como entrar numa caverna” (20). Os tecnopagãos criam dessa forma uma rede eclética que mistura espiritualidade, teosofia, hermetismo e medicina natural. Eles são herdeiros diretos dos hippies e da onda nova era. Eles incorporam esses valores à cybercultura. Entretanto, eles atualizam o movimento hippie de uma nova maneira. Eles aceitam a tecnologia, perspectiva essa oposta aos hippies (retorno à natureza, refutação do artificial, etc.), não de uma forma simplesmente conformista, mas de uma forma apropriativa. Eles implantam assim um “cyberpsicodelismo”, valorizando a utilização comunitária e espiritual das novas técnicas já que essas são as ferramentas mais importantes para atingir os objetivos da Era de Aquário.

O cyberespaço, como espaço mágico por excelência, é visto como potencializador das dimensões lúdicas, eróticas, hedonistas e espirituais. Nós podemos dizer que com o advento da cybercultura, estamos diante de uma verdadeira “info-gnose”, um rito de passagem em direção à desmaterialização pós-industrial.

4 Respostas to “HERMETISMO E GNOSTICISMO NAS REDES ELETRÔNICAS”

  1. deixem a mente lívre. chega de tanto aprisionamento. estamos na era da luz ou nas sombras que a revelam ao mundo. gnose é libertação. gnose é salvação do mundo das aparencias.

  2. Uma pergunta.

    Se gnose é a salvação do mundo das aparências, creio eu de vcs podem desvendar o que está atrás da cruz de Cristo?
    enigma é algo de Deus, não pertencem ao homem.
    o que está atrás da cruz de Cristo?

    • Cristo foi, é e será um Avatar. O que um Avatar da luz faz é a transmutação das energias desqualificadas ou mal qualificadas em pureza. Ele disse que conhecereis a verdade e essa vos libertará, pois bem…só é possivel conhecer a verdade se vc se abrir a novos conhecimentos. Quem sabe, o q nos ensinaram não fosse(seja) a verdade na sua plenitude…. buscar faz parte do conhecimento libertador.

  3. Bom, Robson. A cruz não tem nada a ver com Cristo. Quem inventou a cruz, foi crianças a muito tempo atrás, antes mesmo do cristianismo. A sua dúvida é infundada.

    Então, sem enigma, certo?

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